Os “Instants” do Instagram: estamos cansados da internet perfeita?
Durante anos, o Instagram ensinou-nos a editar a realidade. Escolhemos a melhor fotografia entre vinte tentativas, corrigimos a luz, suavizamos imperfeições, transformamos momentos em conteúdo… e agora lança os Instants.
Fotografias rápidas, espontâneas, temporárias, sem filtros, sem edição avançada, sem grande margem para curadoria, quase como se a plataforma nos dissesse: "voltem a mostrar o momento."
Mas há aqui uma ironia… O Instagram já esteve, em parte, nesse lugar.
Quando surgiram as Stories, só podíamos publicar fotografias captadas naquele instante, diretamente pela aplicação, sem uploads da galeria, sem grande planeamento, sem grande construção estética. O conceito era simples: mostrar o agora.
Rapidamente, arrisco-me a dizer, MUITO rapidamente, isso mudou. Chegaram os filtros, os stickers, os uploads, o branding pessoal, o storytelling pensado ao detalhe e uma pressão crescente para mostrar versões cada vez mais cuidadas da nossa vida digital. O espontâneo também se tornou curado e talvez seja esse o verdadeiro ponto.
Os Instants não representam apenas uma nova funcionalidade, representam uma mudança de humor cultural, porque isto não acontece só no Instagram.
Nos últimos anos vimos crescer o conteúdo lo-fi, as photo dumps, o BeReal, os bastidores, os criadores menos polidos e uma procura crescente por conteúdos mais próximos, reais e menos perfeitos. Tudo isto, não porque deixámos de gostar de estética mas porque começámos a sentir o peso de viver numa internet onde tudo parece cuidadosamente pensado, editado e otimizado para ser visto. Curiosamente, as próprias plataformas ajudaram a criar essa pressão, premiaram feeds impecáveis, consistência visual, vídeos hipereditados e uma presença constante. Neste momento parecem tentar recuperar uma espontaneidade que foram perdendo pelo caminho... não sei se vão a tempo de remediar este erro...
Há outro detalhe interessante nesta aposta da Meta. Os Instants vivem nas mensagens privadas, não no feed, nem na lógica pública dos likes e da validação social, mas nas DM's. Isto talvez diga muito sobre o momento atual das redes sociais.
Segundo a própria Meta, os utilizadores mais jovens preferem espaços mais privados, mais informais e mais casuais. Menos palco, mais conversa, menos audiência, mais círculo próximo.
Ao mesmo tempo, é impossível ignorar o déjà-vu. Há ADN de Snapchat, ecos de BeReal, referências a Locket, mas isso também não é novidade.
O Instagram já seguiu este caminho antes com Stories e Reels. A pergunta que se põe talvez não seja se a Meta copia, seja talvez perceber porque continua a utilizar precisamente estas funcionalidades.
Porque revelam para onde o comportamento digital está a caminhar.
Para quem trabalha em marketing, isto merece atenção, porque talvez muitas marcas ainda estejam a comunicar para um Instagram que já não existe.
Feeds impecáveis, conteúdo excessivamente produzido, mensagens tão perfeitas que acabam por se tornar distantes. Isto não significa que a estética morreu, significa apenas que a relação das pessoas com o digital está a mudar. O público continua a valorizar qualidade, mas talvez procure cada vez mais sinais de humanidade com menos sensação de campanha e mais sensação de verdade.
No fundo, talvez os Instants digam menos sobre o Instagram e mais sobre nós, sobre o cansaço da internet perfeita. Talvez a verdadeira pergunta seja esta:
estamos a assistir ao regresso da espontaneidade digital… ou apenas a uma nova forma de encenar autenticidade?